Pequena, discreta, mas muito importante: conheça a perereca-rústica

Publicado por parquedasaves em 16/10/2023

Atualizado em 1 de novembro de 2023

Por Elaine Maria Lucas Gonsales, coordenadora do Projeto Perereca-rústica

A perereca-rústica (Pithecopus rusticus) foi encontrada pela primeira vez no verão de 2008, durante uma expedição de campo com o objetivo de realizar o levantamento de fauna de uma área de campos de altitude no Planalto das Araucárias. 

Os dados do levantamento subsidiaram a implantação de um parque eólico situado nos limites dos estados de Santa Catarina e Paraná e os registros das espécies de anfíbios também fizeram parte de minha tese de doutorado sobre a diversidade de anfíbios no estado de Santa Catarina. 

Durante as expedições de campo, equipados com botas e lanternas, realizávamos amostragens noturnas nos brejos, buscando encontrar as espécies de sapos, rãs e pererecas ocorrentes ali. 

Foto de uma perereca-rústica em seu ambiente de ocorrência natural, agarrada em uma ramificação de uma planta. A perereca-rústica está de frente para a câmera e seus olhos são visíveis. Ela está agarrada com as pernas da frente. O fundo é escuro e desfocado, mas você pode ver alguma vegetação.

A perereca-rústica (Pithecopus rusticus) é um anfíbio endêmico da Mata Atlântica, ou seja, a espécie só ocorre nesse bioma e em mais nenhum outro.

Em uma noite, me deparei com uma pequena perereca verde, coaxando timidamente nas margens de pequenas poças de um brejo próximo a uma estrada de terra. 

Os machos se deslocavam lenta e graciosamente entre as gramíneas cespitosas próximas da água. 

Esse encontro foi bastante inesperado, pois até aquele momento não havia qualquer registro de espécies de pequeno porte do gênero Phyllomedusa na Mata Atlântica do sul do Brasil. 

Phyllomedusa: gênero de pererecas que inclui muitas espécies que ocorrem nos biomas Amazônia, Caatinga, Cerrado e Mata Atlântica.

Ao analisá-las, de forma mais detalhada e com a ajuda de um taxonomista de anfíbios, o Prof. Paulo Garcia, percebemos que essas pequenas pererecas apresentavam um padrão de colorido e outras características de tamanho levemente diferentes, mas ainda assim, semelhantes à espécie Phyllomedusa azurea, conhecida nas regiões Sudeste, Nordeste e Centro-Oeste do Brasil, além da Argentina, Bolívia e Paraguai. 

Taxonomia: sistema de organização que ajuda a classificar e agrupar coisas semelhantes juntas. A taxonomia faz isso com plantas, animais e outras coisas na natureza, criando categorias como “mamíferos” para todos os animais que têm pelos e dão à luz a filhotes vivos. É como um grande quebra-cabeça que nos ajuda a entender e organizar o mundo ao nosso redor.

Imagem realista de uma perereca-rústica em um caule de planta verde. A perereca é verde e tem algumas listras marrons nas pernas e nas laterais do corpo. Ela está agarrada ao caule com as pernas dianteiras e traseiras. O caule da planta é verde e tem folhas longas.

O ambiente natural das pererecas-rústicas é uma pequena área na cidade de Água Doce, em Santa Catarina, impactado por uma estrada e pela presença de plantações e de gado.

Nossa decisão foi considerá-la como pertencente a esta espécie até que novos estudos fossem realizados.

Posteriormente, realizamos análises moleculares, em conjunto com o Prof. Daniel Buschi, que confirmaram nossa impressão inicial de que se tratava de uma espécie até então desconhecida pela ciência.

Análise molecular: análise utilizada para acessar a identidade genética dos indivíduos. Ou seja, as análises moleculares são análises do DNA, que levam em consideração as informações genéticas das espécies, que funcionam como “marcas digitais” que podem ser usadas para diferenciar indivíduos e espécies entre si.

Assim, a pequena perereca verde de pernas alaranjadas foi descrita em 2014 como Phyllomedusa rustica e logo depois, em 2016, seu nome foi redefinido para Pithecopus rusticus

Ela é conhecida pelo nome comum de perereca-rústica, sendo a única representante do gênero Pithecopus nos campos do Planalto das Araucárias, no domínio da Mata Atlântica no sul do Brasil.

De lá para cá, mas especialmente a partir de 2012, um grupo liderado por pesquisadores da Universidade Federal de Santa Maria, campus Palmeira das Missões, vem monitorando a única população conhecida e também tem buscado por novas populações. 

Apesar das buscas, até hoje ainda não registramos a perereca-rústica em outros brejos. Nós acreditamos que este dia vai chegar, pois muitas áreas ainda precisam ser visitadas

Apesar disso, a situação de conservação da perereca-rústica é bastante preocupante, independente se ela for registrada em mais localidades. 

Você sabe por quê? Porque as áreas úmidas dos campos de altitude (chamadas de brejos ou de banhados) do Planalto das Araucárias vêm sendo mais e mais degradadas a cada ano. 

A principal razão é a ampliação da agricultura e plantio de Pinus.

Uma foto de uma plantação de pinus. As árvores altas e finas, com casca cinza, estão plantadas em fileiras. O chão está coberto com galhos caídos. Uma parte do céu pode ser visto através da copa das árvores.

Plantio de Pinus mais próximo da área da perereca-rústica, na região de Água Doce, Santa Catarina.

Com a perda de hábitat, as espécies endêmicas podem desaparecer para sempre. 

Espécie endêmica: espécies de animais e plantas que só ocorrem em um determinado lugar, como é o caso da perereca-rústica.

Devido a esta situação difícil para a perereca-rústica, ela foi classificada como Criticamente em Perigo – CR na Lista da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção (Portaria MMA nº 148, de 07 de junho de 2022).

Esta categoria de ameaça é a mais grave de todas, sendo a última antes da espécie ser considerada extinta na natureza.

Captura de tela de uma tabela com nomes científicos de espécies e seus status de conservação. A tabela tem 8 linhas e 4 colunas. A primeira coluna é o número da linha, a segunda é a família ao qual pertence a espécie, a terceira é o nome da espécie e a quarta é o status de conservação. Os status de conservação são abreviados como VU para vulnerável, CR para criticamente em perigo e PEX para possivelmente extinto. O fundo da tabela é branco com texto preto e destaques em laranja. Os destaques em laranja estão nos nomes das espécies "Pithecopus rusticus", que é o nome científico da perereca-rústica. Ela se encontra na classificação CR, criticamente em perigo, que é a mais grave de todas.

Perereca-rústica na Lista de Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção. Veja a portaria completa aqui.

Por isso, em 2022 a perereca-rústica foi recomendada pela ASG Brasil para a manutenção ex situ, ou seja, fora do seu ambiente natural. 

ASG Brasil: o Grupo de Especialistas de Anfíbios do Brasil (ASG Brasil) tem como objetivo formar uma rede de especialistas que doam seu tempo e conhecimento para criar uma comunidade onde a conservação prática de anfíbios avance com uma base científica sólida.

É nesta importante e desafiadora missão que entra em cenário o Parque das Aves.  

A manutenção ex situ da perereca-rústica tem como objetivo assegurar uma população de resgate até que as ameaças a esta espécie em seu ambiente de ocorrência natural diminuam ou cessem.

Ex situ e In situ: para se referir aos animais que vivem em seus ambientes de ocorrência natural é utilizada a expressão latina in situ, isto é, “em seu lugar”. Já para os animais que vivem em outro local, fora de seus habitats, o termo utilizado é ex situ, isto é, “fora do seu lugar”. 

Também será possível reintroduzir indivíduos em locais mais seguros no futuro, caso isso seja necessário.

Grupo de pessoas em uma sala com um terrário atrás delas. O terrário, que tem um topo de vidro, contém várias plantas e uma lâmpada utilizada para aquecimento. Uma pessoa está segurando um grande recipiente plástico com tampa. Dentro desse recipiente está um casal de pererecas-rústicas.

Em 2022, o Parque das Aves se tornou a primeira instituição do mundo a abrigar um casal de pererecas da espécie Pithecopus rusticus, também conhecida como perereca-rústica.

Hoje, o Programa de Conservação ex situ da Perereca-rústica envolve o esforço conjunto da equipe do Parque das Aves, com o apoio do Zoológico de São Paulo e de pesquisadores e estudantes da Universidade Federal de Santa Maria, além de outras instituições brasileiras. 

A ação de conservação ex situ também recebe apoio do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade – ICMBio, por meio do Plano de Ação para a Conservação da Herpetofauna do Sul do Brasil (PAN Herpetofauna Sul) e da ASG Brasil, por meio do Plano Estratégico de Conservação de Anfíbios Brasileiros. 

Esperamos que o resultado desse esforço conjunto seja a retirada da perereca-rústica da lista de espécies ameaçadas no futuro.

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